O objetivo maior de um autor ao conceber uma obra consiste invariavelmente no desejo íntimo de repercussão. Não consigo imaginar um pintor, por exemplo, guardando suas produções em porões inacessíveis ao público. Se assim o fosse, criadores deveriam praticar inquisição às avessas, queimando trabalhos inéditos, para evitar revelações indesejadas pós-morte - ou até mesmo deixando de registrá-las.
A intenção de todo produtor de idéias, portanto, reside claramente na necessidade de expor uma mensagem ao alcance de uma audiência. As razões que movem essa busca pela repercussão, ou seja, sua motivação, podem ser várias: admiração dos demais, contribuição para o mundo, auto-afirmação, exposição própria, etc et al.
Contudo, o que interessa não é o leitmotiv do ato em si, mas a sua finalidade última. A título especulativo, poder-se-ia argumentar que um escritor que utilize sua literatura exclusivamente como fonte de renda encontrar-se-ia destituído do interesse de reverberar pensamentos aos seus pares, pois apenas primaria por sua subsistência - invalidando a conclusão acima.
Porém, é preciso considerar que o capital oriundo deste trabalho seria mera conseqüência deste e não seu escopo principal, porque, ainda assim, ele precisaria corresponder às exigências de um público-alvo. Isso em última instância, significaria angariar-lhes o interesse pela obra, causando-lhes algum impacto, uma certa repercussão, há quem diga que no mínimo positiva, mesmo que seu objetivo seja dinheiro.
Repercussão, portanto, deve ser aqui entendida como resultado da comunicação. Esta, por sua vez, compreendida como a manifestação de idéias e sua efetiva recepção pelo outro. Simplificando: a comunicação é um ato que se implementa com o alcance da informação exarada pelo emissor ao receptor (ou ainda, "comunicação não é o que você diz, mas o que os outros entendem"). Obviamente que essa informação pode ser um dado estético, visual ou musical, mas utilizo apenas o exemplo da escrita para facilitar a argumentação, sem porém objetivar reducionismos.
Nesse sentido, uma garrafa lançada ao mar é um ato comunicativo? Evidentemente que sim, pois se o náufrago não pretendesse que fosse encontrada, jamais a teria remetido aos desígnios do mar. Ainda que não tenha especificado o destinatário, admitiu, por exemplo, que o leitor seria alguém que entendesse sua língua ou deliberadamente fez um abstract para aumentar suas chances de resgate ;-).
De outro lado, seria possível um artista produzir uma obra sem pressupor sua apreciação estética por alguém em específico? Ainda assim, este caso também se assemelharia ao náufrago, com a diferença de que este último a remeteria ao oceano da sociedade e do tempo.
Continuando na linha de raciocínio anteriormente concebida, um escritor que despreza ou ignora seu público-alvo é, no mínimo, um autor menor, pois nem mesmo a atitude mais auto-centrista pode se olvidar de reconhecer para quem é destinada a mensagem - ainda que inicialmente seja para si mesmo, uma vez divulgada, admite-se uma audiência, mesmo que potencial.
Não é à toa a profusão de textos decorrentes da viabilização de instrumentos de auto-publicação on-line: o ser humano sente a necessidade de repassar suas idéias para reflexão e depuração dos demais, por isso os contadores de visitantes, sistemas de comentários e e-mails disponibilizados. Um autor que vise à misantropia jamais poderá se utilizar de um meio de comunicação, a não ser que impeça o acesso de seus dados, mas aí ele deixa de ser meio de comunicação e passa a ser mero instrumento de armazenagem.
Estar atento ao público-alvo não é uma cortesia do escritor com o leitor. Antes de tudo, é a essência de todo aquele que deseja se inserir no mundo na qualidade de criador. E, afinal, que graça tem fazer e ninguém ficar sabendo, né?