25.10.09

Mafalda II


Mafalda, personagem do Quino, desenhada por mim.

Essa é a segunda Mafalda que faço. A primeira, sonâmbula, você pode ver aqui. Fiz com uns bastonetes de aquarela que vieram junto com o lápis de cor Faber Castell Goldfaber, presente do André, inspirada em nossa última viagem de férias.

Descobri que é muito melhor pintar direto com o pincel embebido no pigmento a usar o lápis primeiro e depois umedecer. O lápis aquarelável é bom para usar como lápis-de-cor normal, sem molhar.

Viajei para Argentina esses dias, onde ela é uma personagem super cultuada. Impossível não sair de lá com alguma recordação dessa mocinha. Embaixo, uma foto nossa:


Mafaldita e eu!

Essa linda estátua fica em frente à antiga moradia de seu criador, na esquina da rua Chile com a Defensa, em San Telmo, próximo à Casa Rosada. Se fosse aqui no Brasil, tenho certeza que, na primeira semana, perderia o laço!

Criatura e criador

Placa no prédio em que Quino morou no período em que produzia as tiras.

23.8.09

Sobre a autoralidade

O objetivo maior de um autor ao conceber uma obra consiste invariavelmente no desejo íntimo de repercussão. Não consigo imaginar um pintor, por exemplo, guardando suas produções em porões inacessíveis ao público. Se assim o fosse, criadores deveriam praticar inquisição às avessas, queimando trabalhos inéditos, para evitar revelações indesejadas pós-morte - ou até mesmo deixando de registrá-las.

A intenção de todo produtor de idéias, portanto, reside claramente na necessidade de expor uma mensagem ao alcance de uma audiência. As razões que movem essa busca pela repercussão, ou seja, sua motivação, podem ser várias: admiração dos demais, contribuição para o mundo, auto-afirmação, exposição própria, etc et al.

Contudo, o que interessa não é o leitmotiv do ato em si, mas a sua finalidade última. A título especulativo, poder-se-ia argumentar que um escritor que utilize sua literatura exclusivamente como fonte de renda encontrar-se-ia destituído do interesse de reverberar pensamentos aos seus pares, pois apenas primaria por sua subsistência - invalidando a conclusão acima.

Porém, é preciso considerar que o capital oriundo deste trabalho seria mera conseqüência deste e não seu escopo principal, porque, ainda assim, ele precisaria corresponder às exigências de um público-alvo. Isso em última instância, significaria angariar-lhes o interesse pela obra, causando-lhes algum impacto, uma certa repercussão, há quem diga que no mínimo positiva, mesmo que seu objetivo seja dinheiro.

Repercussão, portanto, deve ser aqui entendida como resultado da comunicação. Esta, por sua vez, compreendida como a manifestação de idéias e sua efetiva recepção pelo outro. Simplificando: a comunicação é um ato que se implementa com o alcance da informação exarada pelo emissor ao receptor (ou ainda, "comunicação não é o que você diz, mas o que os outros entendem"). Obviamente que essa informação pode ser um dado estético, visual ou musical, mas utilizo apenas o exemplo da escrita para facilitar a argumentação, sem porém objetivar reducionismos.

Nesse sentido, uma garrafa lançada ao mar é um ato comunicativo? Evidentemente que sim, pois se o náufrago não pretendesse que fosse encontrada, jamais a teria remetido aos desígnios do mar. Ainda que não tenha especificado o destinatário, admitiu, por exemplo, que o leitor seria alguém que entendesse sua língua ou deliberadamente fez um abstract para aumentar suas chances de resgate ;-).

De outro lado, seria possível um artista produzir uma obra sem pressupor sua apreciação estética por alguém em específico? Ainda assim, este caso também se assemelharia ao náufrago, com a diferença de que este último a remeteria ao oceano da sociedade e do tempo.

Continuando na linha de raciocínio anteriormente concebida, um escritor que despreza ou ignora seu público-alvo é, no mínimo, um autor menor, pois nem mesmo a atitude mais auto-centrista pode se olvidar de reconhecer para quem é destinada a mensagem - ainda que inicialmente seja para si mesmo, uma vez divulgada, admite-se uma audiência, mesmo que potencial.

Não é à toa a profusão de textos decorrentes da viabilização de instrumentos de auto-publicação on-line: o ser humano sente a necessidade de repassar suas idéias para reflexão e depuração dos demais, por isso os contadores de visitantes, sistemas de comentários e e-mails disponibilizados. Um autor que vise à misantropia jamais poderá se utilizar de um meio de comunicação, a não ser que impeça o acesso de seus dados, mas aí ele deixa de ser meio de comunicação e passa a ser mero instrumento de armazenagem.

Estar atento ao público-alvo não é uma cortesia do escritor com o leitor. Antes de tudo, é a essência de todo aquele que deseja se inserir no mundo na qualidade de criador. E, afinal, que graça tem fazer e ninguém ficar sabendo, né?

29.6.09

PEC cria cargo específico para juiz eleitoral

Não existe coisa mais odiosa do que chegar numa vara e não obter a tutela jurisdicional só porque o "juiz está decidindo só caso de vida ou morte, pois ele está atuando na justiça eleitoral e, por isso, não pode trabalhar nos processos novos".

Isso acontece porque, atualmente, os juízes comuns são "emprestados" para a Justiça Eleitoral, gerando um acúmulo de funções e um verdadeiro transtorno, pois praticamente a vara para enquanto esperamos o retorno dos despachos à normalidade.

Mais importante e útil que a PEC do Diploma, a PEC que cria os cargos de juiz eleitoral vai conferir maior celeridade ao judiciário, bem como diminuir o stress da vida diária dos advogados :-P humph.

14.6.09

A Petrobrás está resfriada

Outra coisa intrigante é o fato de os jornalistas se sentirem vilipendiados pelo fato de a Petrobrás divulgar as perguntas e respostas feitas por eles, como se a mídia detivesse um suposto direito à propriedade sobre as informações. O argumento é de que essa conduta exporia, aos demais colegas, as linhas investigativas do repórter, retirando a possibilidade das chamadas notícias exclusivas.

Numa coletiva, por exemplo, acaso as minhas perguntas e as respostas do entrevistados não ficaram à disposição de todos? Obviamente que, via de regra, no dia seguinte, os jornais exporão praticamente notícias similares sobre o que foi colhido no evento, mas isso não impede que alguns consigam extrair, das mesmas respostas que foram dadas a todos na coletiva, uma análise, um viés não explorado, um gancho diferente, certo?

Aliás, era bem isso de que tratava o Novo Jornalismo (do "jornalismo literário" de
Tom Wolfe e Gay Talese). Este último, inclusive, é um dos entrevistados da Veja dessa semana e ficou famoso por ter escrito uma matéria sobre o Frank Sinatra, que vale ser mencionada.

Talese havia sido contratado pela Esquire para elaborar um perfil sobre o cantor, mas ele havia se recusado terminantemente a receber o repórter. Tinha vários motivos para isso: estava furioso com um documentário sobre ele da CBS, com as especulações do suposto envolvimento com a máfia e com a atriz Mia Farrow (na época com vinte aninhos e ele às vésperas de seu cinquentenário) e, por fim, padecia de um resfriado que o deixava com um mau-humor dos diabos. Mesmo diante da resposta negativa, Talese ficou zanzando por Los Angeles, na esperança que o cantor mudasse de idéia, enquanto observava-o à distância e conversava com amigos. A obra-prima em questão relata uma não-entrevista, intitulada
Frank Sinatra Has a Cold.

Ou seja, já na década de sessenta, muitos já começavam a se libertar do velho cadáver do furo jornalístico. Ser jornalista não era mais tão-somente dar a notícia em primeira mão (isso é o de menos), mas ser um formador de opinião e conseguir ver por outro ângulo aquilo que os demais nem vislumbravam. E isso não significava sonegar dados: informações são ferramentas, se você não souber o que fazer com elas, nada feito.

Em tempo, no final dessa semana, a mídia noticiou que o blog da Petrobrás "cedeu" e parou de postar suas respostas antes que as matérias fossem publicadas. De todo modo, isso foi mera discricionariedade da empresa, que resolveu concordar com um meio-termo e evitar mais dissabores com a imprensa. Mas, convenhamos, a proposta dos jornalistas de boicotar a estatal por estar fazendo algo legalmente permitido era tacanha e irresponsável. Enfim, isso já deve ser assunto morto em alguns dias.

11.6.09

Petrobrás e a obrigatoriedade dos diplomas

Sério que eu ainda não entendi o alvoroço da mídia pela criação do blog da Petrobrás. Tá bom, eu entendi, mas o Fábio Seixas resumiu de uma maneira melhor:
"Os jornalistas estão alvoroçados porque tal atitude da Petrobras é uma ameaça ao seu poder e influência. Se a Petrobrás já não precisa tanto dos veículos tradicionais para divulgar suas informações, ou mesmo questionar esses mesmos veículos, estes se tornam menos influentes, menos manipuladores e portanto, menos poderosos." Fábio Seixas.
A visão dos fatos não é privilégio dos jornalistas. O exercício do jornalismo muito menos! Se querem ser os únicos supostamente aptos a trabalhar em um jornal, ótimo para eles, porque os meios de comunicação como conhecemos estão no fim.

Os Conselhos de classe são conhecidos pelas tentativas de criar monopólios profissionais. Obviamente que existem certos atos que devem ser obrigatoriamente executados por aqueles que detenham conhecimentos acadêmicos, especializados. Neste caso, a lei traz essa determinação pelo risco que a má-administração dos eventos pode causar às vidas das pessoas.

Mas, me desculpem os jornalistas (ei, eu já fui uma, mas já pensava assim na época), a palavra pode causar danos à vida das pessoas, mas sua manipulação não é exclusividade de vocês. REPITO: se o objetivo de vocês é serem os únicos a aparecerem nos jornais, que seja, mas não queiram interferir na mídia web e principalmente nos blogs, já que vocês foram os primeiros a rejeitá-los e hostilizá-los, menosprezando o seu potencial.

Exemplo de verdadeira forçação de barra, por exemplo, foi a tentativa do Conselho Regional de Química de impor a hotel a obrigatoriedade de manter químico responsável para colocar o cloro na água da piscina (tudo bem que talvez nenhum químico sequer se candidatasse ao cargo, se bem que nestas épocas de marolinha vai saber, né?) Abaixo o julgado:
Ementa: ADMINISTRATIVO. CONSELHO REGIONAL DE QUÍMICA. ATIVIDADE HOTELEIRA. REGISTRO. DESNECESSIDADE.
I- CONSIDERANDO AS EMPRESAS REPRESENTADAS PELA ASSOCIAÇÃO AUTORA SÃO HOTÉIS, E SUA ATIVIDADE CONSISTE NO LAZER EM GERAL, NÃO OFERECENDO QUAISQUER ATIVIDADES A SEREM FISCALIZADAS PELO CONSELHO DE QUÍMICA, E, OUTROSSIM SENDO DESNESSÁRIO PROFISSIONAL HABILITADO PARA MANUSEAR PRODUTOS QUÍMICOS PARA FINS DE TRATAMENTO DE ÁGUA DE PISCINA, POIS QUALQUER UM PODERÁ FAZÊ-LO INDEPENDENTEMENTE DE FORMAÇÃO ACADÊMICA, NÃO SE FAZ NECESSÁRIA A MANUTENÇÃO DE PROFISSIONAL QUÍMICO NO QUADRO DE PESSOAL DA AGRAVANTE, SEQUER SUA INSCRIÇÃO NO CORRESPONDENTE CONSELHO PROFISSIONAL.
II- REMESSA OFICIAL IMPROVIDA.
(TRF-5a Região. REOMS 101552/CE. Desa. Rel. Margarida Cantareli, julgado em 29/04/2008, DJ. no. 99, pág. 289, em 27/05/2008).
E no caso do expressar suas opiniões em público, precisa mesmo de diploma?